Rui Nabeiro: “A maior riqueza é ter muita gente a trabalhar para mim”


“A maior riqueza é ter muita gente a trabalhar para mim”. Rui Nabeiro foi o convidado do ciclo de entrevistas públicas 30 Portugueses, Um País, organizado pelo grupo hoteleiro PortoBay.

Para quem esteve “na presença” do comendador Rui Nabeiro nesta semana quando foi entrevistado no âmbito da iniciativa 30 Portugueses, Um País, evento promovido pelo grupo hoteleiro PortoBay, e o ouviu com atenção, a frase do título só fica completa com a segunda parte: “E eu a trabalhar para as pessoas.”

O empreendedor fundador da empresa de torrefação de café Delta, com sede em Campo Maior, contou que desde criança, quando a sua mãe lhe pedia algo (para si ou para outra pessoa), sempre esteve disponível para ajudar. Se antes ajudar era entregar algo a alguém ou fazer um biscate para “ajudar a mãe a ter menos carências”, hoje é dar emprego a perto de 3400 pessoas e nunca dizer não a quem todos os dias o espera à porta da empresa para lhe pedir emprego.

“Tenho a fama de nunca ter despedido ninguém”, afirmou, concordando com Luís Osório, o jornalista e escritor que modera estas conversas que acontecem todas as semanas no Hotel PortoBay Liberdade, em Lisboa. Mas “despedi, com certeza que sim”, disse, acrescentando que para isso precisou de ter uma razão muito forte para o fazer. Graças ao seu esforço de empregar as pessoas da terra, Campo Maior não tem desemprego.

“É o dono da bola, mas convida todos a jogarem e quando se vai embora não leva a bola”, prosseguiu o entrevistador, levando Rui Nabeiro a recordar como o serviço faz parte da sua essência e o dia em que com 11 anos foi galardoado pelo serviço que prestou enquanto ajudante numa colónia de férias. Construir um império sendo boa pessoa é possível, perguntou Luís Osório. “Eu distribuo mas recebo e também trabalho para ganhar.” Confidenciou que fica sempre ofendido com a palavra rico. “Tenho é de facto muitos sacos de café, muitos clientes, armazéns espalhados pelo país e quase 3400 pessoas a trabalhar para mim. As estatísticas ofendem sempre quem não tem nada, eu sou contra isso”, disse, referindo-se aos rankings que o colocam como um dos homens mais ricos de Portugal.

Rui Nabeiro não nega gostar de dinheiro, não fosse esse o impulso de um homem de negócios, mas ficou claro para quem o ouvia que, genuinamente, não gosta de falar de dinheiro. Mantém-se poupado. No princípio da semana põe no bolso direito das calças uma soma de dinheiro, o limite que deve gastar. Tem ainda uma “latinha” onde vai colocando moedas para no fim de uns meses doar a uma das associações ligadas ao Coração Delta, projeto da Delta na área da responsabilidade social das empresas. “Caminho na rua e ajudo muita gente. Eu não gasto dinheiro, a mulher dá-me de comer, os amigos querem-me pagar.”

Quando lançou a Delta em 1961, “uma marca linda” nas suas palavras, o mercado parecia não ter abertura e a distribuição em Lisboa era feita pelo canal Horeca (hotéis, restaurantes e cafés). Sabia que tinha de fazer aquilo que os outros não eram capazes e assim decidiu enviar um vendedor com uma carrinha cheia de café e distribuir diretamente em Lisboa e no Porto. “Comecei a fazer autovenda e a dar crédito; depois a ter uma máquina e a dar assistência técnica.” Chave do sucesso? A proximidade. Rui Nabeiro optou sempre por ir e dar a cara, presencialmente ou pelo telefone. Nada se consegue à distância e este empresário sabe bem disso. “Visito todos os clientes que posso. Quando uma pessoa telefona e se aproxima vale sempre a pena”, recomenda.

Não passa sem tomar uma bica de todas as marcas de café que estão no mercado porque assim pode sair a ganhar: “É sempre um cliente a conquistar.” Na sua opinião, os empresários deviam apostar mais na proximidade. O que é para si inovação, perguntou sentado na assistência Luís Ferreira Lopes, assessor do Presidente da República para a área das empresas e da inovação e convidado especial desta iniciativa, depois de ter reconhecido o entrevistado pela sua genuinidade e humanismo. “Fazer o que os outros fazem não me dá gozo.

A inovação vem quando há concorrência. Sempre fiz inovação, nunca fiquei parado.” “Foi uma aula de vida e de gestão esta conversa”, disse o anfitrião Bernardo Trindade, administrador do Grupo Hoteleiro PortoBay e ex-secretário de Estado do Turismo, elogiando a forma como Rui Nabeiro tem orientado a sua empresa familiar – separando a esfera particular da empresarial. “As casas e os armazéns que temos são da empresa e não do Manuel ou do Joaquim.

O nosso balanço mostra um património lindo que tem uma orientação: as empresas e as pessoas”, tinha dito um dos homens mais generosos de Portugal como muitos parecem concordar. Rui Nabeiro tem 87 anos e quer viver muitos mais. “Chega uma dúzia de anos mais, mas a minha intenção era chegar aos cem anos”, deseja. Valeu a pena ter vivido? “Sou uma pessoa feliz, o mundo sorri para mim e as pessoas em geral sorriem para mim. E eu se não rio com a boca rio com os olhos.” Mas já tem saudades, reconheceu: “Saudades de querer voltar atrás para reforçar a minha posição – essa é a verdade.”

Entrevista publicada pelo site “Dinheiro Vivo”, publicação do Global Media Group


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