Odemira: O desalento de uma população. Brilha o sol e as pessoas choram.


“Não somos contra as estufas e a agricultura, mas contra a contratação desenfreada e sem regras de pessoas que mais do que trabalhar são exploradas nas empresas do concelho”.

Este é o sentimento generalizado das pessoas de Longueira/ Almograve e São Teotónio/ Zambujeira do Mar, que desde a madrugada desta sexta-feira estão sobre uma cerca sanitária decretada ontem pelo Governo.

Pior é o ambiente à porta do Empreendimento Zmar, onde alguns proprietários das habitações espalhadas pelo complexo, fazem guarda à porta do mesmo procurando evitar que o mesmo se torne um Covidiário, tal como preconiza o despacho de António Costa.

Quem vem de norte, apanha a primeira barreira da GNR na rotunda de Vila Nova de Milfontes que faz a primeira triagem aos condutores que pretendem dirigir-se a sul, entrando pela freguesia de Longueira/ Almograve.

Artur Fonseca, natural de Valongo, procedia de Sines em direção a Portimão onde ia recolher a mulher, professora em Portimão e foi impedido de seguir viagem. “Desconhecia a situação. Vinha a ouvir na rádio e fui apanhado de surpresa. Não conheço nada por aqui agora tem que ser com o GPS”, confessou ao JN.

Manuel Portásio, proprietária de um restaurante nas Furnas, na margem esquerda do rio Mira, essa a voz da revolta. “Isto é um caso político. Só à entrada do Verão se lembraram e fazer a cerca. Há dois meses que tal devia ter sucedido. Há discriminação de freguesias dentro do concelho. Em Milfontes há tantos ou mais estrangeiros do que nas duas freguesias”, dizia a mulher que foi mais longe na sua indignação: “quem veio de Lisboa para aqui passear e pavonear-se, propagou o vírus”, concluiu.

Na Longueira, Armando Gonçalves, proprietário do restaurante João da Longueira, era a imagem do desalento, tendo ao JN justificado que “não dormi um minuto, a desmoralização é muito grande. Contávamos abrir as nossas casas, agora o sol brilha, mas a vontade é de chorar”, defendendo que a cerca sanitária “deveria ter sido muita há 2/3 meses. Os donos das estufas não são prejudicados porque continuam a trabalhar”, rematou.

Mais à frente, está o Zmar, o empreendimento está bloqueado com a rulote de trator agrícola, e atrás dos arames está Pedro Moleiro, de 45 anos, natural de Sintra proprietário de um Zmonte. “Investi o meu dinheiro e sem verão e com infetados de covid-19, vai pelo cano abaixo, porque os investidos vão desaparecer”, acrescentando que a longo prazo “mais de 100 pessoas vão para o desemprego. Eu como proprietário não quero infetados ao meu lado. O Governo deve pensar que isto está ao abandono, isto não é a Reforma Agrária. Estou disposto a destruir o meu Zmonte, porque se não o uso ninguém usa”, rematou.

Em São Teotónio, atrás da caixa registadora do mini-mercado Darshn Nepal, Alissa Malla, há oito anos em Portugal e com nacionalidade lusa, ficava a saber pelo JN que existia uma cerca sanitária e que havia limitações à circulação de pessoas. “Ninguém veio ter connosco, desconhecemos o que se passa, só sabemos as horas de aberta e fecho”, defendendo que “muitas pessoas juntas na mesma casa é um problema muito grande” revelando que na casa ao lado, que já foi ocupada por compatriotas do Nepal, “sete pessoas ficaram infetadas”, concluiu.

José Alberto Guerreiro, presidente da Câmara de Odemira, justificou que “ao contrário do que foi decidido pelo Governo, havia condições objetivas para o desconfinamento. Esperamos que no próximo Conselho de Ministros seja toma a decisão de acabar com as cercas sanitárias”, concluiu.

Além do Zmar, a Pousada da Juventude de Almograve vai também servir de alojamento para infetados de covid-19.

Teixeira Correia

(jornalista)

Foto: Reinaldo Rodrigues/ Global Imagens


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