Beja: Primeiro voo a partir do Terminal Civil foi há 10 anos.


Desde o dia 13 de abril de 2011, passaram-se 10 anos, que deixam uma sensação de “frustração” a muitos dos que participaram neste primeiro voo civil da infraestrutura.

Terminal Civil de Beja está mais consolidado na vertente industrial, assente na manutenção e estacionamento de aeronaves. Da “satisfação” do 1.º voo do aeroporto de Beja à “frustração”, 10 anos depois falta de aproveitamento da infraestrutura.

O primeiro voo civil a partir do aeroporto alentejano saiu às 18h25 de 13 de abril de 2011 rumo à ilha do Fogo, em Cabo Verde, com 70 viajantes a bordo do “B.Leza”, um avião Boeing 757-200 da companhia Transportes Aéreos de Cabo Verde (TACV).

Recordamos a notícia desse 13 de abril de 2011

Passaram oito anos e dez meses, quatro governos, três primeiros-ministros, quatro presidentes da Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja (EDAB) e trinta e cinco milhões de euros de investimento, desde o anúncio de construção feito pelo então chefe do Governo, até à realização do primeiro voo comercial a partir do Terminal Civil de Beja, que se realiza hoje (4ª feira-13 de Abril), tendo como destino Cabo Verde.

Corria o dia 13 de Junho de 2002, quando Durão Barroso, anunciou na capital baixo-alentejana, depois da habitual reunião das quintas-feiras com o Presidente da República, Jorge Sampaio, que visitava Beja no decurso da Presidência Aberta, a construção de um Aeroporto Internacional na cidade.

Uma história de indefinições

Tido como um dos vértices do “triangulo estruturante do Alentejo” a par de Alqueva e do Porto de Sines, a infra-estrutura iria aproveitar as pistas da Base Aérea n.º 11 (BA11) da Força Aérea Portuguesa e teria como principal valência o transporte de carga e ser alternativa aos aeroportos de Faro e Lisboa ao nível de passageiros, nomeadamente, nos voos “low-cost”.

Com um investimento inicial de 33 milhões de euros, o assumido aeroporto internacional era uma obra “reclamada” havia quase duas décadas pela Câmara de Beja, e só viu lançada “a primeira pedra”, em 27 de Janeiro de 2007, numa cerimónia onde esteve presente o agora demissionário Primeiro-ministro (PM). Na altura, José Sócrates deixava a “garantia” de que o aeroporto “estaria operacional” em 2008 e que em 2013 “atingiria um milhão de passageiros/ ano”. Afinal, foram tudo derrapagens, ou melhor, “descolagens abortadas”.

Um mês depois da visita do PM, era atribuída a uma das empresas de Filipe Soares Franco (na altura presidente do Sporting) a construção da primeira fase da infraestrutura. Além do atraso que se verificava nas obras, em Junho de 2008 estas chegam ao conhecimento da opinião pública, pelos piores motivos. Um segurança foi assassinado durante um assalto noturno.

No início de 2009, durante a assinatura do contrato da Concessão Rodoviária do Baixo Alentejo, que entre outras íntegra a construção do IP 8, Mário Lino, titular da pasta dos Transportes, anuncia que seria a ANA-Aeroportos de Portugal vai “explorar Beja”. A situação só seria tornada oficial pelo Governo 14 meses depois, com a publicação em Diário da República das bases da concessão.

Com a chegada dos “gestores de Lisboa”, o papel da EDAB no processo passa a ser “desconhecido”, até o seu próprio futuro, mas mesmo assim, continuam por conseguir as duas mais importantes premissas para viabilizar o Aeroporto de Beja.

A certificação das pistas por parte do INAC, para voos comerciais com passageiros, e acordar com a Força Aérea o valor das taxas a pagar pela utilização das mesmas, por parte das companhias aéreas utilizadoras. Segundo Pedro Beja Neves, da ANA-Aeroportos e responsável pelo Terminal Civil de Beja, estes processos “só estarão concluídos durante o segundo semestre do corrente ano”.

Muitos desconhecem que as pistas da BA 11 estão certificadas para voos comerciais, mas sem passageiros, o que se verificou durante o Euro 2004 e são a reserva estratégica da NATO, para as aterragens de emergência do Space Shatle na Europa.

Negócios viabilizados

Apenas o operador turístico britânico Sunvil Discovery está a promover o aeroporto de Beja como destino. Sedeada em Middlesex, a empresa, aceita a marcação de voos, tendo como limites os dias 22 de Maio a 9 de Outubro, datas compreendidas dentro do chamado Verão IATA.

Os voos charters que o operador se propõe realizar, ocorrerão todos os domingos, e são feitos pela companhia British Midland Internacional (BMI) e a ligação para Beja será feita com um avião Embraer de 49 lugares, com serviço de catering a bordo e a possibilidade de transportar 20 quilos de bagagem sem pagamento.

Na sua página online a Sunvil já vende bilhetes, mas, ressalva que os voos estão dependentes “do anúncio oficial das autoridades” de que o aeroporto vai abrir ao tráfego comercial. 

Acessibilidades “paradas”

Até ao momento os únicos investimentos para garantir um rápido e cómodo acesso ao aeroporto, custaram pouco mais de 2 milhões de euros. O resumo é curto e passou pela construção de uma rotunda na EN 121 (Beja-Ferreira do Alentejo) e a repavimentação e alargamento da EM 528-2, numa extensão de 2,7 quilómetros, entre aquela circular e o final do acesso ao terminal de carga, deixando os restantes 1.500 metros, até São Brissos, a localidade mais próxima, por reparar.

As vias rápidas ainda não chegam a Beja, e os principais acessos têm como rotas, o IP2 ou Estradas Nacionais. Quem tem como destino Lisboa pela A2, acede à mesma em Grândola, a cerca de 60 quilómetros e pela A6, a mais de 80 quilómetros, via Évora. O acesso ao Algarve pela A2, faz-se pelo nó de Castro Verde, a quase 50 quilómetros de Beja.

Voo inaugural para Cabo Verde

A entidade promotora, a Câmara Municipal de Ferreira do Alentejo, descreve o primeiro voo como “um momento histórico para a aviação e o aeroporto de Beja”. O mesmo é justificado como motivo para “celebrar” o acordo de geminação entre o Município alentejano e o de São Filipe, na Ilha do Fogo, no arquipélago cabo-verdiano.

A edilidade presidida pelo socialista Aníbal Costa, sustenta que o voo “não terá custos” para a autarquia a que preside, recusando revelar “os custos” da operação. Num voo a bordo do Boeing da TACV-Cabo Verde Airlines, viajarão cerca de 150 pessoas, 42 das quais na componente empresarial, cujos custos foram assumidos por 60 entidades que patrocinam a operação.

“O orgulho de ser o primeiro voo, a importância da geminação e a irreversibilidade do aeroporto”, garantem a importância da exceção da ligação, justifica o autarca.

Mas nem todos comungam destas ideias. Luís Serrano, presidente do Núcleo Empresarial de Beja (Nerbe) considera que o voo “não teve interesse” para a instituição, nem para ele enquanto empresário, justificando que “ser o primeiro” é uma “bandeira” sem significado.

Não há turismo sem aeroportos

Instado a pronunciar-se sobre abertura ao tráfego do novo aeroporto, Ceia da Silva, presidente da Entidade Regional Turismo do Alentejo (ERTA), considera que as “acessibilidades aéreas” são “fundamentais” para o desenvolvimento turístico de um País ou região.

O líder da ERTA, vai mais longe ao afirmar que “não há turismo sem um aeroporto”, apontando os casos do Algarve e da Madeira. Para Ceia da Silva, para o Alentejo, passa a ser mais fácil “criar rotas aéreas e disputar mercados”, justificando que Beja é diferente dos outros casos: “a acessibilidade está ali, agora importa potenciar”., concluiu.

Para o Presidente da autoridade máxima do turismo do Alentejo, é necessário que o aeroporto “seja apoiado como sucedeu em Faro, Porto, Lisboa e São Miguel”, acrescentando que as primeiras notícias “são simpáticas” reportando-se ao operador britânico que quer voar a partir de Londres. Em termos turístico o aeroporto de Beja “não será um Elefante Branco” rematou.

Segurança: Uma “guerra” de competências

Apesar da placa na campainha do rés-do-chão do Edifício 1, ter escrito PSP, a verdade é que o Ministério da Administração Interna (MAI), continua sem assumir qual vai ser a força de segurança responsável pelo Aeroporto de Beja.

Embora se tenha realizado em Outubro de 2008, um exercício de mediadores da GNR que envolveu o sequestro de um avião com a tomada de reféns, a PSP sempre “teve” como “dado adquirido”, que garantiria a segurança da infraestrutura.

No passado dia 3 de Março, Conde Rodrigues, secretário de Estado da Administração Interna esteve em Beja, onde visitou reuniu e visitou, em separado, PSP e GNR, e aos jornalistas sustentou que poderia ser a Polícia garantir a segurança no aeroporto.

O Superintendente Viola da Silva, comandante da PSP de Beja veio a público garantir que eram os seus homens que “iriam para o aeroporto”, lembrando que há alguns meses, tinha na cidade “uma brigada de minas e armadilhas” vinda de Lisboa e destinada a atuar no local.

A reação do Coronel Garrido Gomes, comandante Territorial da GNR não se fez esperar, tendo o oficial lembrado que a lei orgânica da Guarda, em vigor desde 2008, atribuía àquela força a “segurança das novas infraestruturas aeroportuárias construídas”, garantindo que “em dois dias”, tinha em Beja “os homens e equipamento” necessários a assumir o aeroporto.

Nesse dia houve mais Polícias e Guardas que passageiros no voo que seguiu para Cabo Verde.

Teixeira Correia

(jornalista)


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