Opinião (Rogério Copeto/ Oficial da GNR): COMPETÊNCIAS PARA CONDUZIR.

As últimas estatísticas sobre a sinistralidade rodoviária, dão conta que morreram nas estradas portuguesas até 7 de agosto, 270 pessoas, menos 15 que em igual período do ano passado, mas mais acidentes e feridos graves.

Rogério Copeto

Tenente-Coronel da GNR

Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna

Chefe da Divisão de Ensino/ Comando de Doutrina e Formação

Esperava-se que o ano de 2019, fosse o ano de viragem, no que diz respeito à sinistralidade rodoviária depois de dois anos consecutivos, em que se superaram as 500 mortes em resultado de acidente rodoviário (no local), 510 em 2017 e 508 em 2018, verificando-se, no entanto, que o número de acidentes, continua a subir atingindo o valor de 77.538 até o dia 7 de agosto, sendo que desses, quase metade resultam em vítimas (mortos, feridos graves ou leves).

Pelo atrás referido, facilmente se poderá concluir, que os condutores portugueses continuam a conduzir sem as devidas competências para o fazer, sabendo-se que também o fazem com falta de cortesia, conforme tive a oportunidade de referir no artigo “Cortesia ao volante precisa-se”, onde consta que os fatores que mais contribuem para aumentar o risco de acidente, são o comportamento e o desempenho do condutor.

Tanto o comportamento como o desempenho, influenciam a condução. O primeiro é o que o condutor faz e o segundo é o que o condutor pode fazer, pelo que o desempenho do condutor está relacionado com as competências para conduzir, e o comportamento é o que o condutor escolhe fazer com essas competências.

Vamos então falar de competências para conduzir, que nos parece faltarem aos condutores que circulam nas estradas portuguesas, porque a probabilidade e severidade de um acidente depende das competências de desempenho dos condutores e essas podem-se adquirir através da formação.

Hoje a formação de qualquer trabalhador é sustentada na trilogia: KnowledgeSkills, e; Attitudes. Conhecimento (conhecer o quê), competências (conhecer o como) e atitudes (conhecer o porquê).

Assim, a formação rodoviária deverá ser ministrada com o objetivo dos futuros condutores conhecerem não só as regras da legislação estradal, mas também a aquisição das competências e atitudes necessárias, para que executem uma condução segura e sem erros ou omissões, tendo em conta aquilo que se espera, que sejam as aptidões que um condutor deve ter, na condução de automóveis ligeiros ou pesados.

O conhecimento é a informação teórica adquirida sobre qualquer assunto, enquanto as competências se referem à aplicação prática desse conhecimento. O conhecimento pode ser aprendido, enquanto as competências requerem prática, podendo também ser inatas. Em última análise, ambos o conhecimento e competências são necessários para dominar qualquer área de estudo.

E as atitudes são o que se tende a fazer, não significando que se faça mesmo, apesar de poder fazer algo, como por exemplo, saber-se que se deve evitar beber e conduzir, mas depois ter a atitude de conduzir em estado de embriaguez.

Transpondo estes conceitos para a formação dos condutores, verifica-se que esta deverá focar-se nas competências para conduzir, porque nos parece obvio que aumentar as competências dos condutores para a condução irá reduzir as taxas de sinistralidade, devendo-se por isso apostar na formação por competências dos condutores, sendo aceite que condutores com mais competências, são condutores mais seguros.

Assim, sempre que se chega ao volante de um veículo automóvel, seja um condutor experiente ou iniciante, há sempre espaço para melhorar, pelo que a seguir se apresentam algumas dicas, para aperfeiçoar as competências para conduzir de forma segura e inteligente.

Saber conduzir à distância certa do veículo da frente, tendo em conta a velocidade e as condições da estrada, são competências que podem evitar a ocorrência de um acidente. Conduzir em velocidade excessiva é conduzir a uma distância incorreta do veículo da frente e sem adequar a velocidade ao estado da via.

Aprenda a estacionar corretamente, devendo para o efeito praticar as vezes que forem necessárias, nomeadamente o estacionamento entre dois veículos, podendo usar a técnica que a seguir indicamos: Parar ao lado do primeiro veiculo, como os espelhos alinhados; engrenar a marcha a atrás e virar o volante em direção ao passeio, até que veja o farol direito do veiculo de trás pelo seu espelho retrovisor do lado esquerdo; virar a direção no sentido contrário até que a frente entre no espaço livre e o seu veiculo fique alinhado entre os dois veículos.

Conduza mantendo as mãos no volante nas “nove e um quarto” ou nas “oito e vinte” e não nas “dez e dez”, conforme durante anos foi ensinado nas escolas de condução. Com uma posição das mãos mais baixa, terá mais controlo e estabilidade ao conduzir, sendo também a adequada para longos períodos de tempo.

Ajuste todos os espelhos retrovisores de forma a cobrir todos os “pontos cegos”.

Não conduza com sono nem depois de consumir bebidas alcoólicas.

Não conduza em excesso de velocidade.

Utilize os indicadores de mudança de direção, sempre que pretenda mudar de direção.

Nas ultrapassagens primeiro verifique se tem espaço e tempo para a executar, depois olhe para o espelho retrovisor, para saber se outro veículo já iniciou ou pretende iniciar a ultrapassagem, a seguir assinale a intenção de ultrapassar com o indicar de mudança de direção da esquerda e por último faça a manobra no mais curto espaço de tempo e em segurança.

Saiba como se deve movimentar no trânsito. A mudança de via de forma brusca, causa transtorno no tráfego, motiva a fúria dos outros condutores e aumenta a possibilidade de acidentes. Em locais de estrangulamento, a forma correta deverá ser a mudança de via alternando os veículos da direita e da esquerda.

Saiba como adequar a condução às condições adversas, nomeadamente em condições de piso escorregadio e de noite faça uma correta utilização das luzes, nomeadamente as luzes de estrada (máximos) e as luzes de cruzamento (médios), e nunca conduza só com as luzes de presença (mínimos), especialmente com nevoeiro, devendo usar as luzes de nevoeiro ou os médios.

Saiba como executar corretamente as curvas, sabendo que um veículo de tração traseira, tem um comportamento diferente de um com tração dianteira. Nas curvas um veículo de tração traseira poderá entrar em sobreviragem (o veículo parece querer virar mais do que lhe é pedido) e um veículo de tração dianteira poderá entrar em subviragem (o veículo parece querer continuar a ir a direito, mesmo com as rodas viradas).

Não se distraia com nada e conheça o seu percurso antes de iniciar a marcha. Se no passado o telemóvel era unicamente usado para comunicar por voz com outra pessoa, hoje os smartphones são usados para tudo, desde comunicar, por voz ou texto, tirar fotografias e como GPS, levando o condutor a dividir constantemente a sua atenção com o smartphone, em vez de se concentrar unicamente no ato da condução, aumentando por isso o risco de acidente.

Pratique, porque quanto mais conduzir, melhor condutor será. Uma condução consciente, é afinal de contas, uma competência que não devemos tomar muito por garantida.

Terminamos com um dado que consta na página seis do Relatório de 2009 da ANSR, onde num gráfico é comparado o consumo de combustível, com os restantes indicadores de sinistralidade (acidentes, mortos, feridos graves e leves), concluindo-se que existe uma relação direta entre o número de acidentes e de vítimas, com o consumo de combustível, esperando-se por isso que durante a greve dos motoristas de matérias perigosas, se verifique uma redução dos acidentes e em consequência também do número de vítimas. Pelo menos no que diz respeito à sinistralidade rodoviária, esta greve poderá ter algo de positivo.

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