Opinião (Paulo Vilela/ Oficial GNR): A CAVALARIA DA GUARDA NACIONAL REPUBLICANA (2ª PARTE).

Conforme prometido, neste segundo artigo terminaremos o que nos propomos dar a conhecer sobre a Cavalaria da GNR.

Paulo Vilela

Tenente-Coronel de Cavalaria da GNR e Auditor de Segurança Interna

Juiz Nacional de Ensino

Treinador de Equitação grau 3

Assim, no que respeita à Ordem Pública, as necessidades de a manter ou restabelecer, abarcam normalmente problemas complexos e melindrosos, não sendo tarefa fácil para as forças de segurança o controlo destes distúrbios civis, num estado de direito, livre e democrático, como é o caso de Portugal.

Na Manutenção e Restabelecimento da Ordem Pública torna-se necessário avaliar para cada situação as causas que deram origem aos distúrbios civis e ter forças preparadas para intervir de forma adequada e eficaz, recorrendo a técnicas e táticas especialmente desenvolvidas para o efeito, sempre no estrito respeito pelas liberdades, direitos e garantias do cidadão.

Neste tipo de missões, a GNR dispõe de forças apeadas, forças a cavalo e forças cinotécnicas, que poderão atuar de forma isolada ou se necessário em conjunto, formando-se então um agrupamento especial de forças de ordem pública que permite aumentar as potencialidades de atuação da força e reduzir as limitações de cada uma delas quando atuam isoladamente.

A Cavalaria da GNR vem apostando desde 2001 na formação de forças a cavalo especializadas, com um curso apropriado para este efeito, com o objetivo de preparar os militares e os cavalos para intervenções mais musculadas quando as situações assim o exigem.

Este curso tem sido alvo de grande interesse no quadro internacional. Também neste âmbito a cavalaria tomou a iniciativa de querer estar na vanguarda, procurando ter as matérias teóricas e os procedimentos práticos organizados e estruturados neste curso, sendo o reconhecimento internacional a confirmação natural da qualidade da formação ministrada, em que durante 4 semanas, cavalo e cavaleiro são testados e postos à prova para resistirem com serenidade a situações de maior adversidade. Destaca-se a participação dos seguintes países: Espanha, Chile, Marrocos, Turquia, Angola, Brasil e mais recentemente a Jordânia e Omã.

O campeonato de futebol EURO 2004 realizado no nosso país sempre foi apontado como um caso de sucesso em termos de organização e segurança, sendo que as forças de cavalaria também contribuíram em grande medida para esse êxito, tendo sido balanceadas e projetadas para todo o território nacional onde se disputaram os desafios de futebol.

No que diz respeito à produção da doutrina e formação da cavalaria e emprego dos meios a cavalo da GNR, essa responsabilidade recai sobre a Unidade de Segurança e Honras de Estado, sob a supervisão do Comando da Doutrina e Formação. Esta Unidade tem uma componente formativa bastante acentuada, uma vez que é necessário preparar diariamente cavalos e cavaleiros para o cumprimento das missões operacionais anteriormente referidas. É um trabalho moroso, que exige bastante tempo e disponibilidade, não raras vezes subestimado por alguns e quase sempre feito na retaguarda, com toda a descrição. Além da definição da doutrina sobre os assuntos da Cavalaria, do emprego dos meios a cavalo e seu dispositivo territorial, tem ainda a seu cargo o planeamento e execução das acções formativas de acordo com Planos Anuais de Formação, no que concerne aos cursos de formação inicial e aos cursos de qualificação e especialização específicos da Arma de Cavalaria.

A GNR sempre foi uma referência no hipismo nacional e internacional, sendo a USHE o repositório vivo das tradições da Cavalaria portuguesa. Por outro lado, a Guarda tem vindo a participar, sempre que possível, sem prejuízo da sua missão primária, no apoio à população. Neste contexto não despiciente, os cavalos da GNR têm vindo a ser empregues de forma complementar em outras atividades com interesse social.

As Escolas de Equitação da GNR, representam um meio essencial de ligação à população e de incentivo à prática da equitação pelos jovens, sendo que há décadas tem encontrado enorme aceitação entre as comunidades onde estas se encontram em funcionamento.

A Hipoterapia é uma atividade com imensos benefícios terapêuticos e tem vindo a ser potenciada, sempre que é solicitada a parceria entre a GNR e as instituições especializadas.

A equitação desportiva de competição é uma realidade incontornável para a aquisição e aperfeiçoamento de conhecimentos técnicos, que em última análise contribuem para a eficácia do cumprimento das missões das forças a cavalo. Por outro lado, a Guarda tem como visão ser uma referência na formação equestre em Portugal e só a equitação desportiva de competição permite esse reconhecimento interno e internacional. Compreende as seguintes disciplinas olímpicas: Dressage; Saltos de Obstáculos e; Concurso Completo de Equitação.

É de salientar que estas atividades complementares ao serviço geral da Guarda constituem-se em ferramentas estratégicas para preparar o militar para um melhor desempenho da sua função, permitindo reforçar as suas competências, melhorar os pontos fracos e aperfeiçoar a qualidade de serviço prestado à sociedade civil.

Por último, resta referir que os cavalos utilizados estão aptos para o cumprimento de todos estes serviços, podendo na mesma semana, em certos casos, estarem empenhados em todas as atividades anteriormente enunciadas.  É sem dúvida um cavalo multifacetado, com todos os atributos do cavalo lusitano, em que a calma, a robustez e a coragem estão sempre presentes, o que permite com facilidade o seu uso nos diferentes serviços a executar.

É neste concentrado de ideias, traduzido em poucas palavras que se procura dar a conhecer muito do que é feito na Cavalaria da GNR. E como diz o “fado”, a Cavalaria é tudo o que eu digo, mais o que eu não sei dizer… porque muito mais haveria a escrever.

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