Opinião (Mário M. Afonso): O milagre do Menino Jesus.

Perdido na imensidão das noticias, de igual forma, como todos aqueles que se preocupam com a evolução da pandemia causada pelo COVID-19, procuro ativamente testemunhos, para avaliar o meu enquadramento, numa possível e provável sobrevivência.

Mário Monteiro Afonso

Médico Veterinário

Para os parcos conhecimentos que possuo, há perguntas que gostaria de ver esclarecidas, de forma a suplantar a imensa informação sem nexo, que vou recolhendo dos meios de comunicação.

O milagre do Menino Jesus

Em dezembro de 1967, um menino de 12 anos que estudava na cidade mais próxima da sua aldeia, voltou à sua terra para passar o Natal com os avós, porque os pais eram emigrantes. Fosse na cidade, ou já na aldeia, ficou contaminado por um agente patogénico desconhecido. Apareceu o quadro típico de uma gripe: temperatura alta (não se soube o valor porque não havia termómetros), dor de cabeça, dificuldade em respirar, alguns pesadelos quando adormecia. O mal-estar fazia com que ele evitasse mexer-se. A avó, com carinho levava-lhe alguns “mimos” na esperança de o animar. O avô à noite recorrendo aos tradicionais tratamentos do vinho doce com banha de porco ou à aguardente doce queimada, lá procurava que ele com dificuldade os ingerisse e depois sempre a recomendação “vais aquecer, suar, não te destapes, puxa bem a roupa da cama para ti”. Quatro dias passaram, mas melhoras, se é que as havia, não se notavam.

Noite de consoada, o jantar não foi muito animado, porque o menino estava mal e continuava na cama. No fim da refeição, foram cuidar do neto e entre conversas de entretenimento para ver se comia alguma coisa, diz a avó: “anda, levanta-te que o avô leva-te a ver o toco do fogo (o toco do fogo é a denominação que de certa forma ainda hoje perdura na aldeia dada à fogueira que noutras localidades dão como madeiro de natal), levas a samarra nova e vais ver que manhã estás curado”. A samarra que era para estrear no dia de Natal, convenceu-o. A tremer, por diferença térmica, foi ajudado a vestir, e lá partiu pelas ruas escuras (porque não havia eletricidade na aldeia) com o avô, até ao largo da igreja onde ardia o toco do fogo.

A multidão rodeava a gigantesca fogueira, a labareda tinha metros, as faúlhas elevam-se até perder a sua luminosidade e voltarem a terra apenas como cinza. O avô e o menino aproximaram-se e inseriram-se na roda de pessoas que circundava a enorme fogueira. O calor era intenso, o avô afastou-se para falar com várias pessoas, e ele fascinado com a chama, e todo o cenário da fogueira, ia aquecendo o seu corpo adoentado. Aquecia fortemente a parte do corpo virado para a fogueira, mas o oposto arrefecia, o que o levou a um constante rodopio, contrabalançando as diferenças térmicas de forma a ter o corpo fortemente aquecido, porque se estava a sentir bem.

O tempo foi passando. O avô prudentemente achou por bem leva-lo para casa. Antes de voltar à cama, o ritual da aguardente queimada e o mesmo conselho dos outros dias.

No dia seguinte, sem qualquer sintoma e bem-disposta, a criança deslumbrada corre ao encontro da avó, a gritar: “avó, avó”, estou curado. A avó, feliz por ver o neto radiante, diz-lhe: “Foi um milagre do Menino Jesus”.

Os anos passaram-se, o menino ficou adulto, foi ganhando formação e conhecimentos e um dia numa aula de microbiologia, quando o professor falava de vírus, ficou a saber que o milagre do Menino Jesus, tinha estado na fogueira de Natal.

Disse o professor, que os vírus não suportam muito calor e na banda dos 38 a 40 graus deixam de ser viáveis. Ao contrário, as bactérias gostam de temperaturas altas. Expôs ainda, que estas são oportunistas, aproveitando-se  do ataque dos vírus que desencadeiam no organismo alterações no sistema termorregulador. O aumento da temperatura, cria o ambiente propício ao desenvolvimento bacteriano, que originará um quadro mais ou menos severo conforme a patogenicidade da estirpe.

Quero deixar bem explícito, que embora seja consumidor moderado de álcool, não é intenção com a narrativa do Milagre do Menino Jesus, incentivar o seu consumo. Porém há mais de 50 anos, em zonas remotas da Ilustre Nação portuguesa, onde era difícil ter acesso a médico e medicamentos, a população lutava pela sobrevivência, tudo valia para superar o sofrimento. Utilizava-se ainda outra mezinha, potente bomba energética, que às vezes dava mau resultado, face ao choque térmico, que levava de vez em quando, mesmo à morte. No entanto as pessoas relacionavam como se a doença tivesse causa do desfecho, e não resultado da beberagem. Tratava-se do vinho quente doce com “untura” (banha de porco).

Sempre que a Comunicação Social faz referência ao dia das bruxas, em dia 13 e lua cheia, na ilustre Vila de Montalegre, e destaca a “queimada do Padre Fontes”, vem-me sempre à memória a famosa terapêutica de terras beirãs, da qual os meus avós eram fãs.

Os hábitos, costumes, e tradições, vão-se perdendo no tempo, graças à feliz circunstância de sermos capazes de solucionar as nossas dificuldades, de uma forma científica e racional, muito mais funcional. Havia procedimentos, que abandonámos e que talvez hoje tivessem alguma utilidade. Não precisamos de voltar ao passado mas acautelar o presente com alguns procedimentos ancestrais:

1 – Quarentena, cerco, sequestro

Outrora, quando não havia a bateria de terapêuticas que hoje temos à nossa disposição, e o corpo apresentava variação térmica, as pessoas ficavam recatadas em casa, porque havia a noção, da possibilidade de desenvolver uma pneumonia, que muitas vezes era fatal. Hoje somos valentes, a medicação ajuda, eu não preciso de me resguardar. Um antipirético, que também é analgésico liberta-me de alguns inconvenientes. Se a situação não se agravar, acabou-se a preocupação. Pergunto: “ouviste o teu corpo dizer que algo não estava bem e procuras-te saber o que é?

Hoje muito bem informados, conhecemos o perigo, e até nos é pedido o recolhimento e o que fazemos? Não… isso não é comigo, se a coisa correr mal vou ao hospital. Mesmo sem epidemias ou pandemias, à mínima situação de um resfriado, corremos, e atulhamos, as urgências dos hospitais, quando deveríamos dar ao nosso organismo dois ou três dias, no grande ou pequeno conforto que temos em nossa casa.

2 – O sistema termorregulador.

É desconfortável e dolorosa a sensação de temperatura anormal (febre). Se é externa ao nosso organismo, ele através de um complexo sistema, consegue dentro de certos limites equilibrar aquilo que pode por em risco a vida. Porém, quando o mecanismo termorregulador é ativado, face a uma agressão interna, a situação torna-se mais complexa é aí que é preciso saber atuar. Há que ponderar vários fatores e ir vigiando os sintomas, porque sobretudo no campo bacteriano, há agentes que no seu desenvolvimento libertam toxinas que criam quadros bem dramáticos e que precisam de uma antibioterapia, ou um soro, o mais cedo possível. Já no combate aos vírus, têm aparecido alguns medicamentos promissores, em número muito reduzido, sem a espetacularidade que os antibióticos tiveram, e ainda têm, no combate às bactérias (se nos abstivermos de considerar as resistências que cada vez mais aparecem). Até agora a melhor forma de combater os vírus tem sido ficar expectante. Os organismos através dos seus mecanismos de defesa criam imunoglobulinas (anticorpos) que vão neutralizar o vírus, além de poderem ainda criar cenários mais complexos como o “sequestro” em que o agente infeccioso fica aprisionado dentro duma estrutura mais ou menos fibrosa.

É portanto incontornável a necessidade de durante algum tempo existir um aumento de temperatura (febre) para que o organismo responda com o seu mecanismo de defesa. Porém há que ter em atenção o sistema cardiorrespiratório, porque a falência pode acontecer. Outro parâmetro a ter em conta é que não pode passar os 40 graus, por razões de homeostase celular, e risco de convulsão, que se traduz por violentos espasmos musculares. Pelo menos 72 horas parecem ser suficientes para se dar início a uma boa resposta de defesa.

3 – A temperatura e a idade

Com a idade vai-se perdendo certas propriedades que regulam e controlam o sistema termorregulador. Destaca-se a camada adiposa subcutânea que ajuda na conservação do calor quando o meio exterior arrefece. Também a diminuição de glândulas sudoríparas, impedem o arrefecimento, quando a temperatura interna aumenta. Outra vertente, são as patologias e alterações cardiorrespiratórias, que os idosos são mais afetos. No entanto, os mais novos, que tenham disfunções nesta área, são igualmente suscetíveis de complicações ao aumento ou diminuição de temperatura.

4 – A administração de antipiréticos será um erro?

Na fase inicial de uma gripe, provavelmente sim, não passa no entanto numa suposição baseada na forma como se inicia e desencadeia a resposta imunitária. Neste campo, não há estudos, porque ao logo dos tempos a preocupação humana não é a ação sobre alterações das condições do “terreno” (sistemas respiratório, digestivo, vascular, hepático e renal) onde se se dá o ataque, mas sim a inativação ou eliminação dos agentes nocivos. As terapêuticas farmacológicas (se a vacina também se poder considerar um produto farmacológico) são bem mais fáceis de aplicar.

Quando com um agente viral instalado no nosso organismo suspendemos a temperatura, estamos também a diminuir ou até suspender a resposta imunitária. Parece-me por dedução, evidente, que as pessoas que tiveram os primeiros sintomas e os camuflaram com antipiréticos, e continuaram a ter uma vida mais ou menos normal, permitiram que o vírus aumentasse a sua quantidade viral, e o organismo “empanturrado”, inicia numa segunda fase de defesa processos muito mais complexos e muito mais violentos. Há então apenas dois desfechos possíveis:

  1. a) O organismo a muito custo consegue por ele próprio ou com a ajuda das nossas terapêuticas suspender e anular o agente infeccioso.
  2. b) O agente infeccioso acaba por vitimar o seu hospedeiro e a si próprio se não conseguir sair de onde se instalou.

5 – O que não confirmei – A ação do calor

Da história do Milagre do Menino Jesus retirei algumas conclusões, esquecidas durante cerca de quatro décadas, que agora, por causa do alarmismo e da perigosidade do COVID 2, foram reativadas na minha mente. Será que o calor recebido pela via aérea superior e externamente pela parede costal aceleraram o processo resolutivo da infeção que tinha? Existiria nas vias aéreas ainda agente infeccioso? No caso de ser um vírus, a temperatura e a desidratação tiveram ou poderiam ter ação sobre as espículas do vírus, ou estruturas semelhantes de acoplagem às células por desnaturação das proteínas? A temperatura teria ajudado a uma rápida reabsorção da inflamação ou restos, existentes das vias respiratórias?

Fiquei com a noção que o calor fornecido pela fogueira é melhor que o calor resultante do obtido por acamação. Era inspirado mais “seco”, muito mais intenso e a transpiração (que controlava o excesso de calor) não era tão húmida (os tecidos de vestuário ou da cama colavam-se ao corpo de maneira diferente).

No que concerne à queimada não deixei de anotar pormenores. Aconchegado na cama levou a que houvesse transpiração. A aguardente quente volatiliza o álcool que tem. Ao passar pela boca e faringe os elementos que se vão volatilizando acompanham o ar da inspiração e algum remanescente na expiração. Dei conta que o expirado pelas narinas reduzia a congestão nasal já que o ar passava a fluir mais facilmente. Como acontece, não sei explicar. Ficou ainda a dúvida, perante esta “mezinha” do nosso povo, se os componentes inspirados não modificariam também as condições das vias aéreas, e por conseguinte, alguma ação sobre o agente infetante.

6 – Pelo sim… pelo não…

O provérbio “paninhos quentes e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém” encerra uma sabedoria simples, que assenta apenas no reforçar das condições dum organismo. Sempre que o nosso conhecimento é ultrapassado, devemos ter racionalidade para equacionar outras situações que não agravem ou ponham em risco a nossa saúde, mas possam contribuir para o nosso bem-estar.

É comum em nossa casa defender a ideia – “aguardar até ver o que dá” – quando certos sintomas aparecem no nosso corpo. Só quando vemos que não conseguimos superar a situação é que recorremos ao Sistema Nacional de Saúde. Procuramos que os nossos corpos reajam, mas não somos masoquistas, porque logo que o sofrimento se torna mais acentuado, partimos à procura de ajuda.

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