Opinião (José Lúcio/ Juiz): Que bem que se está no campo.

Começar a manhã a percorrer os quilómetros entre Évora e Beja sempre envolto num nevoeiro londrino, a ouvir na rádio informações sobre o trânsito na VCI, na avenida de Gaia e no eixo Cascais-Lisboa, as temperaturas em Moscovo e Nova Iorque, chegar à metrópole bejense e enfrentar tantas dificuldades de estacionamento como em Roma ou em Paris, e uma pessoa sente-se no centro do mundo.

José Lúcio

Juiz

Maior cosmopolitismo não há certamente. Ainda assim sobram alguns pequenos senões. Dizem os interessados que faltam por aqui hospitais, centros de saúde, creches, escolas, fábricas, quartéis (até um tribunal), e um ror de outras coisas que contribuem para dar consistência e dignidade ao patamar civilizacional a que se chegou. Noto que faltam acessos elementares, porque as estradas estão uma desgraça, o caminho de ferro retrocedeu para níveis oitocentistas, aeroporto há mas não há, as queixas e carências abundam.

Reconheça-se que o ar é mais puro e o pessoal é menos – respira-se melhor e vive-se mais à larga. Devemos agradecer à mãe natureza, e quedarmo-nos satisfeitos com o que temos? Deixo a dúvida.

Porque dúvidas subsistem (sem dúvida nenhuma). Um velho amigo, ilustre e intelectual, dizia-me há anos que nas localidades alentejanas o estado de preservação era admirável, porque há quinhentos anos que não fazem cá nada. Não sei se uma realidade compensa a outra. Os meus amigos portuenses quando lhes calha atravessar isto para alcançar o Algarve ficam sempre extasiados com a imensidão do espaço e a solidão das gentes; mas nenhum se mudou para cá.

Confesso, quanto ao território, que vou mantendo um sentimento ambíguo. Por um lado, subsiste aquele olhar afectuoso com que vemos os céus e as terras que os nossos olhos viram ao abrir-se. Por outro lado, sente-se a angústia do que falta.

E quanto às gentes, e à vida? Não parece possível a visão idílica da cidade e as serras (creio que me entendem, mesmo os menos queirosianos). Não é um éden entre Tejo e Guadiana. Em todo o caso, também não é tão trágico como poderia deduzir-se das pinturas mais negras.

As pessoas não variam muito em função dos sítios, como a experiência ensina. Há de tudo em todo o lado. A este propósito estou a lembrar-me de Camilo. Apresentando “Vulcões de Lama” aos seus leitores Camilo critica os que, embalados por ilusões românticas, querem ver no bucolismo dos campos um paraíso de virtudes. Diz ele que toda a podridão que infecta as cidades também não falta nas aldeias.

Deve ter razão, porque na realidade a distribuição do vício é coisa das mais universais e igualitárias que se podem apontar. Nem é preciso especialização científica em alguma escola de realismo antropológico para o reconhecer. Basta só um pouco de senso comum, e experiência de vida.

Camilo por vezes exagerava, como era próprio do seu temperamento, e a imensa galeria de patifes e patifarias que nos expõe assume frequentemente traços de caricatura. Não encontro nestas estepes transtaganas tanta maldade junta como o autor dos tais vulcões de lama fez questão de sobrecarregar as suas novelas.

De qualquer forma, engano de alma ledo e cego (Camões soa sempre bem) seria o pensar que por cá tudo são encantos de alma. A elevação espiritual é dura e custosa. As virtudes são bem escasso, onde quer que se esteja. É inevitável experimentar tarde ou cedo sentimentos de injustiça, ou de ingratidão, porque a justiça, a gratidão e o reconhecimento são infinitamente mais raros do que o seu contrário.

Isto percebe um qualquer, por menos moralista que seja. Resta concluir que com tudo isso é preciso viver, fazendo aquilo que temos que fazer. Muitas vezes apenas porque sim, porque tem que se fazer. E porque está certo. Sobretudo por isso, por ser o que está certo.

(Texto escrito segundo a norma ortográfica anterior ao AO1990, por opção do autor)

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