Opinião (José Lúcio/ Juiz): O desprezo pelo conhecimento.

Eu sobre isso não sei nada, mas tenho a minha opinião. Mais extraordinária ainda do que esta afirmação é a forma como como ela está vulgarizada, tanto que passou a ser ouvida constantemente a propósito de tudo e de nada sem que provoque qualquer reacção de estranheza.

José Lúcio

(Juiz Presidente da Comarca de Beja)

Banalizou-se. Cada um tem direito a ter a sua opinião, e, pior do que isso, somos todos iguais. Pois claro. Claríssimo. Tanto vale a posição fundamentada de quem consumiu anos de vida a estudar e a reflectir sobre os mais difíceis problemas como o vozear sem sentido de quem pensa que pensa alguma coisa sobre o assunto.

Dizem-me que é a democracia, e eu por aí não me atrevo. Custa-me porém a aceitar esta progressiva desvalorização do saber que se foi implantando nas sociedades actuais. Com a explosão das redes sociais, o fenómeno, que já era conhecido, agravou-se e generalizou-se. Parece que desapareceram de todo as inibições, e todos se sentem perfeitamente à vontade para falar sobre tudo.

A atitude é, aliás, estimulada e cultivada. “A pergunta de hoje é sobre ciência, ora diga lá o que é que acha sobre a teoria da relatividade”. “Agora falamos de linguística, deixe o seu comentário sobre as particularidades da conjugação verbal no primitivo indo-europeu”. E nunca faltam multidões de opinantes, disponíveis para fantasiar sobre as mais esquisitas questões. Todos acham qualquer coisa.

O achismo é obviamente uma das manifestações mais flagrantes da mesma doença. Discuta-se seja o que for, e ninguém do grupo reunido quer passar sem opinar. Vergonha é confessar honestamente que sobre o tópico não se sabe nada de nada. E assim decorre o debate, um acha isto, o outro acha aquilo, e todos os presentes acham qualquer coisa. No fim de contas, feito o balanço, ninguém achou nada que não tivesse sido já achado há muito tempo.

Houve épocas, mais sensatas, em que se chegou a dizer que mais vale ficar calado e passar por parvo do que abrir a boca e desfazer todas as dúvidas. Agora é inaceitável tal raciocínio. Quem faz boa figura na sociedade é quem disserta com inteira descontração e com a mesma facilidade sobre qualquer tema, sobretudo aqueles de que nada sabe.

Relacionado com o mesmo fenómeno está o tudólogo. Este, como é notório, é um especialista em tudo. Faz um sucesso tremendo nas televisões, nas rádios, nos jornais. Tão depressa comenta a mais alta política como o mais baixo futebol. Passa sem hesitar da economia para a saúde, da segurança social para a justiça, da música para a poesia. E as gentes embasbacadas pasmam de ouvi-lo, admiradas em ver como se concentra tanta ciência numa cabeça só.

Tudo isto poderia até ter a sua graça, se fosse possível atentar apenas no ridículo. Todavia, é forçoso observar uma tendência mais funda e preocupante. É o que chamei no título de desprezo pelo conhecimento. As novas gerações estão a ser alimentadas na crença falsa e perigosa de que o pensamento pode desenvolver-se no vazio. É o que eu penso, é a resposta habitual perante qualquer questionamento. Mas pensas porque estudaste, investigaste o tema, leste sobre o assunto, reflectiste sobre ele? Não, nada, é só o que eu penso.

Esta ilusão de que o pensamento não precisa de fundamento, esta superficialidade tornada norma, é uma característica arrepiante deste nosso tempo, a que as novas plataformas comunicacionais vieram dar impulso crescente. Não sei onde vai parar, mas não consigo observá-la sem um sentimento de apreensão.

(Texto escrito segundo a norma ortográfica anterior ao AO1990, por opção do autor)

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