Opinião (José Lúcio/ Juiz): Entre Tejo e Guadiana.

Por vezes, acompanhando os telejornais, fico a pensar que o grande azar do Alentejo é a sua localização. Não fica em Lisboa, nem no Porto, e nem sequer no caminho entre esses dois pontos. Ora assim somos invariavelmente esquecidos.

José Lúcio

(Juiz Presidente da Comarca de Beja)

Eu explico melhor. A vida política nacional reduziu-se há muito tempo a uma existência bipolar que se traduz numa negociação permanente entre Lisboa e o Porto. Não sei se os leitores já repararam mas os políticos e comentadores do Porto quando dizem Sul querem dizer Lisboa e os políticos e comentadores de Lisboa quando dizem Norte querem referir-se ao Porto. As mentes já estão formatadas assim e tudo se esgota nesse eixo.

E tudo se decide em função dessa dialética. Uma espécie de ping-pong amigável. Para cá, fica o deserto – como em tempos lembrou um ilustre ministro socialista.

Este meio país que fica abaixo do Tejo conta muito pouco nos cálculos do poder. Somos poucos, muito poucos.

O que fazer então? Eu não sei. Vou teimosamente tentando aproveitar os espaços livres para insistir nas minhas causas, que julgo serem as nossas causas. Penso que cada um pode na sua esfera de acção utilizar as formas de intervenção disponíveis, e se as vozes de muitos convergirem num mesmo sentido aumentam as possibilidades de serem ouvidas.

O Alentejo só poderia ter algum peso em Lisboa se fosse capaz de se apresentar unido e em consonância defendesse aos seus interesses essenciais. A convergência, essa união de todas as forças e agentes sociais locais poderia talvez suprir a terrível escassez numérica que nos diminui.

Infelizmente nem sempre se verifica essa identidade de sentimentos que seria pressuposto para uma forte mobilização em prol das causas comuns. É vulgar a indiferença perante o anúncio do encerramento de mais alguns postos dos correios, ou de mais umas agências bancárias, ou de outro posto policial, ou de mais uma repartição – enquanto for com outros não nos diz respeito a nós.

Gostaria de ver outro sentir e outra reacção, porque isto afecta-nos a todos. A região alentejana confronta-se hoje com uma situação que compromete qualquer perspectiva de desenvolvimento futuro. Acima de tudo, a continuação do processo de despovoamento, por perda progressiva de população pela emigração interna e externa. Sem gente nada se faz. E por ora a tragédia demográfica a que assistimos não apresenta sintomas de inversão.

Esse processo só pode ser travado e invertido se aqui persistirem ou se criarem as realidades que determinam a fixação das populações. Os empregos, os serviços, as condições de vida. Todos temos que ter consciência que por cada serviço que fecha ou por cada emprego que se perde fica mais alguém a preparar-se para partir.

Pela minha parte, desde há quatro anos em exercício de funções na Comarca de Beja, tenho procurado em todos os momentos defender a organização judiciária existente no distrito. É preciso porfiar para manter os quadros legais, assegurar os serviços instalados, pugnar pela optimização das instalações. O que se perder em qualquer reorganização dificilmente regressará.

Nessa lógica insere-se a nossa teimosa insistência na construção pelo poder central de um novo edifício para o parque judiciário em Beja. São já quatro anos de persistência, para responder a uma necessidade diagnosticada muito antes. A motivação é evidente: a viabilização e melhoria das instalações físicas permite reforçar as instituições de justiça existentes, e consolidar a centralidade de Beja na oferta dos serviços de justiça (cível, criminal, laboral, de família e menores, administrativo e fiscal).

Nada do que se tem pode encarar-se como garantido.

Evidentemente que existem outras prioridades, para quase toda a gente, e por isso a questão da construção de um novo “Palácio da Justiça” passa ao lado da generalidade dos nossos concidadãos, mesmo daqueles habitualmente mais empenhados nas coisas do desenvolvimento local. O que Beja precisa menos é de tribunais, já me disseram. Pode ser que seja verdade, mas receio que por essa ordem de ideias quando Beja chegar a ter bons acessos já cá não reste nada.

O que importaria era agir de tal modo que a reivindicação dos acessos, sejam ferroviários, rodoviários, ou aéreos, encontrasse logo justificação óbvia numa realidade viva que os imponha e exija. O desenvolvimento de uma região, a qualidade de vida das populações, pressupõem muito mais do que bons acessos. Se nada existir por cá, corre-se o risco de estar a pedir boas estradas e excelentes comboios apenas para que a gente possa ir-se embora mais depressa.

(Texto escrito segundo a norma ortográfica anterior ao AO1990, por opção do autor)

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