Opinião (José Lúcio/ Juiz): Cogitações soltas de um homem obscuro.

Quem observe de longe esta minha rotina de escrevinhar umas vulgaridades e lançá-las a público ainda há-de julgar-me um daqueles sujeitos que por ânsia irresistível andam aí a esforçar-se por se equilibrar em bicos dos pés para parecer mais altos. Aos interessados asseguro que não sou assim.

José Lúcio

(Juiz Presidente da Comarca de Beja)

Na verdade sempre fui mais dado ao recato que à exibição. Pacato por natureza, vivo bem na obscuridade e no silêncio e a exposição em excesso deixa-me deveras desconfortável. Tenha-se ainda em conta que a inspiração é fraca: até o título ali acima, cogitações soltas de um homem obscuro, foi pilhado ao velho Herculano, que por razões óbvias já não pode reclamar direitos.

Claro que Herculano sabia bem que homem obscuro é que ele não era (mesmo para os seus contemporâneos, pois a ele não se aplicou a vulgar injustiça de só ser reconhecido o valor de alguém depois de morto e enterrado). E também tinha bem interiorizada uma ideia nada modesta sobre o seu merecimento, pelo que a autodesignação de homem obscuro traz no bojo forte dose de ironia.

Vê-se bem destarte que não é esse o meu caso. Por obscuro me têm os outros e obscuro me vejo, sem pretensões em contrário.

E quanto a inspiração para a escrita, confesso que certa vez um amigo querendo lisonjear-me elogiou o que ele chamou a minha facilidade para a escrita (foi a única vez que ouvi tal) e ainda hoje estou aqui a remoer a revolta. Facilidade! Qual facilidade? Eu é que sei o que custa. Sem querer ser dramático, apetece-me falar em sangue, suor e lágrimas, como dizia o outro da guerra que começava. Sangue, suor e lágrimas, isso é que é escrever. E nunca encontrar a palavra certa, nem imagem que sirva, nem ideia que preste.

Fica assim a faltar explicação para a insistência.

Temos que reconhecer que entre o céu e a terra não faltam coisas sem explicação. Talvez seja mais uma. Até pode ser, mas não se perde nada em procurar explicar.

Tudo principia num pormenor decisivo: eu gosto. Ora quando se gosta de algo somos irresistivelmente tentados a pensar que os outros não desgostem do mesmo. Vamos então partilhar o gosto. Corre-se o risco. Há uns tantos que aplaudem. Melhor ainda. Vamos então continuando, e ganhando habituação e à vontade.

Nasce assim do nada um cronista improvável.

Por outro lado, persiste óbvia necessidade de comunicar, a que se juntou uma convicção própria de que a comunicação deve ser praticada como um instrumento ao serviço das funções assumidas. Ser juiz é a mais solitária das funções. Não há colectivo que possa contrariar isso, que é da natureza das coisas: sozinho é que se decide, por um processo interior insusceptível de ser partilhado, e no momento da decisão está ali o ser mais só deste mundo e do outro.

Suspeito que o continuado exercício da função arraste diferentes consequências em uns e outros. O que em mim causa esse impulso para falar, e se possível falar para o exterior, acredito que noutros provoque a tendência contrária.

Podemos deste modo dar por assente que estou por gosto, por necessidade e por impulso. Já são razões que explicam. Mas referi ali também a convicção, e isso acresce decisivamente. Trata-se do convencimento já várias vezes explanado de que a causa da Justiça fica melhor servida se os seus protagonistas forem capazes de estabelecer normal conversação com a sociedade em que lhes é dado viverem. Se os outros nos conhecerem não poderão ficar presos nas grosseiras caricaturas que de nós trazem formadas.

Soma-se assim ao gosto, à necessidade e ao impulso, bem pessoais, uma intenção de serviço nascida da aludida convicção. Um homem gosta de ser útil, e eu acredito que estou a ser útil assim.

Nesta altura os heróicos leitores que aqui tenham chegado estarão a pensar que considerando as motivações apresentadas não precisava dar à luz texto tão confessional. É verdade, mas tenham paciência. Uma pessoa às vezes também precisa de se confessar.

(Texto escrito segundo a norma ortográfica anterior ao AO1990, por opção do autor)

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