Opinião (José Lúcio/ Juiz): A saia do Rafael.

Passado que foi mais um período eleitoral, um amigo prudente e sensato explicou-me que não tinha conseguido votar. É que, dizia ele, eu a uns nem os conheço, e portanto não posso votar neles, e aos outros já os conheço, e por isso não consigo votar neles.

José Lúcio

Juiz

Fiquei a admirar a atitude e a sabedoria do meu amigo, o elevado sentido de responsabilidade cívica que o faz respeitar deste modo o seu voto, impedindo-o de o depositar nas urnas levianamente (como tantos ainda fizeram).

Estou em crer que desta forma está encontrada a explicação para tanta abstenção e tanto voto nulo, que os tornam em conjunto o bloco largamente maioritário na sociedade portuguesa. Com efeito, e por esta ordem de ideias, a raiz do fenómeno está no escrúpulo e no apreço com que os portugueses comuns encaram o seu voto. Assim, nuns não podem votar porque ninguém os conhece e noutros não são capazes de votar porque toda a gente os conhece.

Não sei é como descobrir uma saída para este impasse, mas também reconheço que isso não é matéria do meu pelouro. Falo só como espectador, embora espectador interessado no maravilhoso espectáculo do mundo.

E o mundo não cessa de nos oferecer razões para espanto. Suspeito que um estranho gás, uma substância qualquer indetectável se espalhou pela atmosfera e invadiu tudo, disseminando por todo o lado uma onda de insanidade e loucura. Aquele bom senso simples e humilde que em tempos era associado ao cidadão médio, consagrado na literatura jurídica sob a figura do bonus pater familias, parece ter desaparecido nas sociedades contemporâneas, ou então esconde-se envergonhado perante o triunfo da asneira.

Reparem na confusão instalada na nossa mais antiga aliada. Haverá ou não saída do Reino Unido da União Europeia? Ninguém sabe. Alguém percebe o que querem os ingleses? Julgo que os próprios não sabem. Desconfio que querem sair e ficar.

Vejam só as notícias aqui da vizinha Espanha. Um governo acossado pela obrigação institucional, a que não pode fugir, de confrontar-se com uma ofensiva secessionista, lembrou-se de compensar as suas perdas junto dos sectores que descontentou por essa via lançando-se paralelamente numa ruidosa campanha… funerária. Como se bater em mortos alguma vez ficasse bem a alguém, como se desenterrar cadáveres e convocar fantasmas pudesse alguma vez constituir um programa político respeitável.

Deixemos porém esse afã necrófago movido por calculismos da mais baixa política. Prodigioso é observar por cá o maravilhamento que o nacionalismo catalão produz em tantos que ardem de indignação perante a mais ligeira manifestação de nacionalismo português. A bem dizer o fenómeno não é novo; sempre em Portugal fizeram mais sucesso os nacionalismos exóticos, fossem na Catalunha, no Vietname ou em África, do que qualquer nacionalismo próprio, invariavelmente olhado com estranheza e desprezo.

Todavia, agora a tendência atinge particular expressão e intensidade. Pretende-se corrigir todo o passado colectivo, criminalizado retroactivamente. Quer-se institucionalizar essa condenação consagrando-a no sistema de ensino e nas mais diversas manifestações culturais. Anuncia-se já o ataque à bandeira, que é imperialista e supremacista, e ao hino nacional, que é belicista e xenófobo. Mas subsiste em simultâneo o fascínio perante os nacionalismos dos outros, tantas vezes tribalistas e mesquinhos, quando não abertamente racistas, e o êxtase perante outras bandeiras e hinos.

Não me peçam para explicar, porque não serei capaz. Limito-me a observar, perplexo, como um passageiro em terra que segue com o olhar um comboio em andamento a que não consegue vislumbrar o destino.

E acabo hoje por aqui, que já desabafei mais do que as conveniências aconselhariam. Paciência, e perdoem o eventual excesso.

Alguns hão-de perguntar-se por esta altura por que estranho motivo ficou este escrito intitulado “a saia do Rafael”, se em momento nenhum se fala na famosa saia. Pois é verdade, e declaro formalmente que nunca tive a menor intenção de falar em tal. A saia serviu-me aqui para o mesmo que lhe serviu a ele. Se vieram mais alguns leitores à conta dela, já valeu a pena.

(Texto escrito segundo a norma ortográfica anterior ao AO1990, por opção do autor)

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