Opinião (José Lúcio/ Juiz): A opinião pública e a opinião que se publica.

Verifico nos grandes órgãos de comunicação social que os habituais comentadores de referência andam nos últimos tempos muito zangados com o público. Ao que parece as populações estão desorientadas, ou pelo menos não seguem as orientações deles. Veja-se o eleitorado, que em várias partes do vasto mundo faz questão de lhes desobedecer.

José Lúcio

(Juiz Presidente da Comarca de Beja)

Eu não tenho razões de queixa. Humilde escriba em ignotos meios provincianos, nunca me arroguei a pretensão de educador de massas. Nem nunca fui portador de receita a que atribua poderes milagrosos de redenção da humanidade. Consequentemente, não sofro nenhuma emoção especial com os caminhos assumidos pelos poucos que porventura me lerem, nem me perturbam reacções pontuais de aplauso ou de discordância. É a vida, simplesmente.

E aí está a grande questão que ressalta das manifestações de desgosto ou de fúria a que assistimos por exemplo no jornalismo largamente dominante. Os sistemas ideológicos em que assentam as crenças dos comentadores aparentam ruir fragorosamente, e estes reagem invectivando as massas que teimam em contrariar as suas visões do mundo, ou ameaçando-as com negras previsões.

Perante o catastrofismo crescente não posso evitar um sorriso, ainda que amarelo. O alarmismo agora imperante no comentário político chamado de referência explica-se obviamente pela derrocada dos projectos políticos e sistemas ideológicos que forneceram os quadros mentais de toda a vida para a generalidade desses comentadores. A sua raiz não está em qualquer realidade pavorosa subitamente despertada, está na imensa confusão e frustração dos seus tenores.

Quando parecem desabar as ilusões de toda a vida, até as inteligências tidas por mais sólidas podem sofrer de alucinações. Para muitos talvez não haja nada a fazer, mas creio que para muitos outros estamos no momento próprio para reflectir sobre o abismo que parece aprofundar-se entre a opinião publicada e sectores cada vez mais expressivos do público a que se destina.

Esse desfasamento dificilmente poderá ser superado com a continuidade de uma situação em que vanguardas militantes instaladas nos centros nevrálgicos de produção de opinião lutam por impor-se a populações que cada vez mais as ignoram, ou até se revoltam abertamente contra o que sentem como as imposições dessas pretensas elites esclarecidas.

O velho conflito entre a opinião pública e a opinião publicada não pode já resolver-se pelo triunfo desta última. Nos tempos que correm, em que a opinião e a informação circula por tantos canais e por tantas formas, é um anacronismo pensar que pode ter sucesso um jornalismo feito para as causas dos jornalistas. Onde se tem manifestado abertamente essa tendência (um “partido dos jornalistas”, unidos contra ou a favor de uma opção decisiva) os resultados não têm sido famosos. As massas não gostam.

Enfim, desconfio que o jornalismo do futuro ainda vai ter que recorrer às regras e princípios do jornalismo do passado. E romper com esta prática delirante que infesta redacções e que consiste tão só em tentar impor as suas próprias escolhas como se fossem as únicas.

Quanto ao catastrofismo da hora, deixemos correr que depressa passa.

Eu, que nunca fui especialmente optimista (e nem sou propriamente progressista, por não conseguir partilhar essa superstição ingénua de que a marcha da história seja sempre para a frente e para melhor), confesso que estou tranquilo. Ainda não vai ser amanhã que o mundo vai acabar.

(Texto escrito segundo a norma ortográfica anterior ao AO1990, por opção do autor)

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