Opinião (José Lúcio/ Juiz): A justiça e a rã.

Acontece com inusitada frequência ver e ouvir responsáveis políticos e reputados especialistas na matéria a dissertar sobre a Justiça e ficar com a desagradável sensação de que o mais óbvio escapa às doutas divagações – no mais elementar não reparam.

José Lúcio

(Juiz Presidente da Comarca de Beja)

Insistem e tornam a insistir em que as coisas não andam como gostariam, mas esquecem o facto basilar de só poder andar o que tem pernas para andar – por pernas devendo entender-se aqui os instrumentos, os meios, a estrutura necessária para corresponder a todas as solicitações e impulsos.

Perdem-se portanto no aparente ou no acessório, ignorando o essencial. Talvez não seja de propósito (por vezes será, é visível que para muitos a Justiça preocupa muito mais quando funciona do que quando não funciona).

Todavia, é inevitável a frustração de quem assiste conhecendo por dentro aquilo de que se fala por fora. São exercícios onde a realidade não entra, por mais douta que seja a roupagem. E não poupo no diagnóstico os observatórios, laboratórios, comissões, gabinetes, especialistas e comentadores, todos convergindo na convicção de que a rã não salta porque não ouve, como se concluía numa anedota que me contaram há já uns anos.

Alguns dos meus amigos já conhecerão, mas não resisto a contar. É aquela história do cientista e da rã, deliciosa de ironia, sobre a fragilidade de muitas conclusões que tantas vezes nos servem envoltas em pretensões de rigor científico.

Um cientista ocupava o melhor do seu tempo e do seu esforço ao estudo das rãs. E a dada altura empenhou-se numa experiência. Treinou uma rã a obedecer a um comando simples: ele ordenava-lhe que saltasse, e a rã saltava. O animal já estava muito bem treinado – bastava a ordem de saltar, e nem era preciso repetir. Ela saltava, obedientemente. Neste ponto, concluída esta fase, o cientista decidiu passar a nova etapa da sua experiência.

Começou por arrancar uma perna à rã. Em seguida emitiu a habitual voz de comando: salta! A rã, mesmo desajeitadamente e num movimento algo tosco, obedeceu como de costume. O cientista anotou a sua observação, e continuou. Arrancou uma segunda perna à rã. Depois, tornou a ordenar: salta! A pobre rã, com dificuldade, fez força nas duas patas que lhe sobravam e lá saltou, num trambolhão desastrado. O cientista voltou a anotar o seu caderninho, e prosseguiu a experimentação. Arrancou a terceira perna da rã. Aqui o pobre animal arfava, com todos os sintomas de não estar nada bem – mas o experimentador continuou: salta! O bicho mostrava grande dificuldade em mexer-se, volvia-lhe uns olhos aflitos, e ele insistia: salta! Perante a insistência, a pobre rã, apoiando-se na sua única perna, conseguiu um pequeno impulso e respondeu com um arremedo de salto. O cientista tornou às suas anotações, cada vez mais absorto na experiência, e resolveu continuar. Arrancou finalmente a última perna da rã. A seguir, dirigindo-se ao que restava da rã, insistiu no comando tantas vezes ensaiado: salta! Insistiu e tornou a insistir. Salta! A pobre rã exibia um olhar agonizante, e permanecia no imobilismo total.

O cientista, persistente, não descurou a certificação imposta pelas regras da ciência: repetiu a ordem tantas vezes quantas lhe pareceram necessárias para poder retirar, com o desejável rigor, as lições da experiência. Porém, nada se alterou – a rã não se mexeu, por mais que ele teimasse.

 Nessa altura, ufano do seu trabalho, o cientista reabriu o caderno de apontamentos, descreveu a parte final da experiência, e terminou com a sua ilacção: a rã sem pernas não ouve.

Não me atrevo a escrever aqui que as habituais sumidades opinantes na área da Justiça tenham por anseio cortar-lhe as pernas para depois lamentar a sua falta de ouvido; mas que fazem os possíveis por ignorar que sem pernas nada anda como deve ser, lá isso é verdade.

(Texto escrito segundo a norma ortográfica anterior ao AO1990, por opção do autor)

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