Opinião (José Lúcio/ Colunista): Tribulações da vida judiciária.

Não sei se já repararam que num jogo de futebol actuam três equipas, mas só duas é que têm adeptos. A terceira é a equipa de arbitragem, e não conta com adeptos nem simpatizantes. Naturalmente, é para esta que são canalizadas todas as frustrações e descontentamentos que a partida traga.

José Lúcio

Colunista do Lidador Notícias

Escreve à Sexta-feira

Estou em crer que esta observação simples explica em larga medida as dificuldades de juízes e tribunais perante a opinião pública. Quem tem a função de julgar tem escassas possibilidades de agradar. Em qualquer litígio e seja o que for que se decida há sempre uns que ficam revoltados, porque as suas pretensões ficaram contrariadas. E não se pense que os outros ficam satisfeitos.

Na verdade um lado fica indignado, porque se perdeu alguma explicação obscura e sinistra deve haver para tal (está fora de questão admitir que a razão talvez não lhe assistisse de todo). E o outro lado também sai com notório azedume da contenda, porque (obviamente!) a razão que lhe foi reconhecida não é dádiva nem favor – e tanto tempo e trabalho para ver coisa tão evidente também revolta.

Estamos assim condenados às vaias, aos assobios e aos insultos, sem que alguma vez o consolo de alguns aplausos venha aliviar esse destino.

Todavia, é bom de ver que sem a equipa de arbitragem não havia futebol. Tente-se, e não custa adivinhar a balbúrdia e a zaragata que alastraria no estádio mal o jogo começasse. Equipas adversárias e claques respectivas tratariam de tornar impossível a realização do desafio. A equipa de arbitragem é mesmo indispensável.

Esta observação também justifica algumas reflexões sobre juízes e tribunais. Com efeito, mesmo não gostando deles creio que todos mais ou menos reconhecem que não podemos viver sem eles – de outra forma a vida em sociedade ficaria deveras complicada. E não ficaria melhor, certamente.

Apesar dessa constatação, para a generalidade do público, e para a opinião publicada, receio que a principal utilidade de tão veneráveis instituições continue a ser a mesma das equipas de arbitragem nos jogos de futebol. Servem para descarregar descontentamentos e frustrações com esta vida que vivemos.

Há corrupção na sociedade? A culpa é dos tribunais. Grassa a criminalidade? A culpa é dos tribunais. Temos presos a mais? A culpa é dos tribunais. Temos ladrões à solta? A culpa é dos tribunais. Os devedores não pagam? A culpa é dos tribunais. A economia não anda? A culpa é dos tribunais. Cresce a violência doméstica? A culpa é dos tribunais. Explode a desordem nas ruas? A culpa é dos tribunais.

Percebe-se assim que os tribunais desempenham uma função crucial no equilíbrio deste ecossistema em que todos somos forçados a conviver. Sem eles não se descortina onde se poderiam descarregar tantas culpas.

E isto é muito confortável para todos (menos para os tribunais, claro, mas já sabemos que essa é a sorte das equipas de arbitragem). Para a mencionada opinião pública e para aquela que se publica, porque assim evitam olhar noutras direcções. Para as demais instituições e poderes, porque enquanto todos estiverem virados para esse lado não estarão a olhar para eles.

Tal qual como no futebol. Enquanto houver equipas de arbitragem pouco interessa que a nossa equipa não jogue nada, que a defesa não defenda, que os atacantes não marquem golos, que os treinadores façam asneira, que os dirigentes negoceiem passes e comissões, que todos vão tratando da vidinha e muitos enriquecendo à custa do desporto.

A culpa será sempre dos árbitros.

(Texto escrito segundo a norma ortográfica anterior ao AO1990, por opção do autor)

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