Odemira: Comunidade Tamera, gente do mundo encontrou paraíso no concelho.

Alemães fizeram do Monte do Cerro, em Odemira, a comunidade Tamera, que tem 200 pessoas e atrai gente do mundo. Contra a violência e pelo amor livre.O presidente da Junta de Freguesia de Relíquias, Daniel Balinhas, diz que não vieram ensinar nada, “mas sim recordar o que os antigos faziam”.

Trabalho: Premium Diário de Notícias. Texto: Céu Neves e Fotos: João Silva.

Um caminho de terra batida no meio do Alentejo, placas de boas-vindas, cavalos e um lago gigante à entrada, árvores e vegetação. Estrangeiros, na maioria, circulam sem parecerem ter pressa. Na cozinha, o fogão funciona a energia solar e os pratos são veganos. Poderia ser um campo de férias, mas não é isso que desejam os residentes da comunidade de Tamera, em Odemira. Desejam um futuro sem guerra, com amor e sexo livres, sem medo. Nesta semana organizam o maior evento anual, que junta aos seus 200 habitantes 35 pessoas vindas de todo o mundo.

“Defender o sagrado: conferência para agentes de mudança globais” é o título do encontro, iniciado nesta sexta-feira e que termina amanhã. São três dias, mas a maioria dos participantes encontram-se em Tamera para fazer o curso principal, três ciclos de estudo de três meses, um por ano. Uma formação para espalhar por todo o mundo biótopos de cura, habitat onde todas as formas de vida – humana, animal, vegetal, aquática – “coexistem na sua diversidade”. É um regresso às origens, em harmonia com a natureza e sem violência.

Tamera é uma comunidade com 200 residentes (170 adultos e 30 crianças e jovens), iniciada por três alemães no Monte do Cerro, em Odemira. O sol, o terreno disponível e a hospitalidade da população eram as condições ideais para aqui se instalarem em 1995. E é desde o Alentejo que querem criar uma rede global e formar a Terra Nova.

Líderes e membros de comunidades indígenas e de movimentos sociais da Europa, da América e de África participam na conferência deste ano. A inscrição custa 150 euros, diminui para 60 no caso dos jovens e dos portugueses. Existem muitos outros eventos que constituem a principal parcela do milhão de euros que faturam anualmente. As visitas e os cursos (presenciais e online) contribuem com 59,1 % das receitas, os donativos em geral com 18,4% e as doações dos colaboradores com 17,4%.

O curso principal custa 3500 euros para os oriundos da América Latina e de Portugal, mais dois mil para quem viaja da Europa ou dos Estados Unidos. O curso de introdução à filosofia da comunidade, uma semana, fica entre 300 e 400 euros. A organização fornece as refeições e, em geral, os participantes devem levar tenda. “São pessoas que têm projetos nos seus países, querem iniciar novos ou pretendem juntar-se à comunidade de Tamera”, explica Joel Barros, um dos residentes e o coordenador.

É o caso de Leo Baltadouro, 29 anos, ex-agente imobiliário, que nasceu na Nicarágua; Valentina Denti, 39, psicóloga e terapeuta, na Itália; Alexandra Suriano, 26, estudante, no México; Fabian Mauermann, 36, carpinteiro, na Alemanha. Vivem todos no México, numa comunidade idêntica à Tamera, Inla Kesh (Eco Village Design Education). Partilham a mesa do jantar (19.00) com a espanhola Mariló Herrero, 40 anos, o filho, e o alemão Andy Wolfrum, estes residentes em Tamera há sete anos.

Conta a italiana Valentina: “Vivo no México há sete anos, colaborei três com a comunidade Inla Kesh, mudei-me para lá há ano e meio. Trabalhamos num modelo de paz e numa liderança com amor.” Pagaram as despesas através de crowdfunding (financiamento coletivo), que não pagou tudo.

Ao desejo de romper com uma vida agitada, a vender casas e a contar dinheiro, o nicaraguense Leo junta críticas ao regime político do seu país, a razão de ter emigrado para o México. “Procurava algo que me satisfizesse interiormente e encontrei em Inla Kesh, foi uma mudança radical.” É uma comunidade inspirada no modelo de Tamera e que o alemão Fabian ajudou a fundar, em 2012, no estado mexicano de Chiapas.

Fabian deixou Inla Kesh há dois anos e meio para visitar a família na Alemanha, regressou ao México e mantém a colaboração, é dinamizador da biodança, “uma dança que facilita a integração afetiva. Partilhamos vivências, trabalhamos nos aspetos pessoais e comunitários com base na dança e na música”, explica. Foi criada pelo antropólogo chileno Rolando Toro, nos anos de 1960 e que inicialmente se chamava psicodança.

A nacionalidade maioritária dos residentes é a alemã. Tamera é um projeto iniciado em 1978, com Dieter Duhm, psicanalista, historiador de arte e sociólogo, Sabine Lichtenfels, a companheira, teóloga, e Charly Rainer Ehrenpreis, engenheiro físico e músico, que faleceu no último 3 de julho.

O corpo regressou à Alemanha, ficou a presença e o espírito. “Morreu mas continua entre nós, não muda nada. Não só continuam os outros dois como há uma nova geração disponível para continuar com o projeto”, acredita Sabina Muller, 70 anos, uma enfermeira que deixou a profissão.

Dieter, Sabina, Charly e outros quatro pioneiros fundaram na Alemanha o projeto Bauhuett, não encontraram o sítio ideal no seu país e viajaram até ao sul de Portugal, fixando-se no concelho de Odemira. Em 1995, alicerçaram o que é hoje o Centro de Investigação Educação para a Paz. Compraram terrenos secos, que agora têm vegetação e lagos, numa extensão de 140 hectares, que incluem espaços de convívio, de equitação, um campo de produção e testes solares, um centro cultural (café e bar), uma zona de meditação (círculo de pedras), além de um centro de saúde e escola.

Uma vida de partilha, que procura a harmonia com a natureza e numa economia sustentável. Captam e produzem energia solar, recuperaram as águas das chuvas, transformam os dejetos em matéria de combustão e fertilizantes, alimentam-se do que cultivam e até as roupas são recicladas. Trabalham para a não violência, defendem o amor livre, não permitem o consumo de drogas e de álcool nos espaços comuns, têm uma alimentação vegana (sem produtos ou derivados de origem animal).

“Não somos um conjunto de hippies a trabalhar para a paz e para o amor livre. Mas começámos a perceber que se não trabalhamos na nossa própria violência não podemos construir um mundo de paz”, diz Isabel Rosa, 51 anos, que há sete anos deixou o mundo da publicidade e da televisão.

Sexo e amor livres

“Make love, not war” (Façam amor, não a guerra) é o slogan pacifista do século passado que John Lennon eternizou e que os fundadores de Tamera praticam. Olhados pela população com estranheza, que os caracteriza como os indivíduos que “fazem sexo uns com os outros”, para logo concluir: “Costumes dos suecos e dos alemães, mas isso é lá com eles.”

A comunidade pratica amor e sexo livres, disponibilizando espaços para os encontros. Isabel Rosa não foge à questão: “Amor livre quer dizer amor livre de medos, só isso dá um grande trabalhão. Conseguir amar uma pessoa sem a minha biografia, sem o meu passado histórico. Há tanta violência por causa do amor, violência doméstica motivada por ciúmes, o objetivo é conseguir amar sem ter medo de que o outro se vá embora por ter uma atração por outra pessoa. Podemos viver em Tamera e ser completamente celibatários, ter uma relação monogâmica ou com mais de uma pessoa.” Mudou de vida aos 44 anos, sem esquecer os amigos e a família. “Não nos desligamos do mundo nem vivemos numa bolha.” Está na área dos media.

Optou por uma vida que assenta em quatro áreas: água, energia, alimentação e comunidade. “Ainda não somos completamente autossuficientes, ainda compramos o esparguete”, brinca a alemã Sabina Muller. Deixou a enfermagem aos 56 quando viu os folhetos sobre Tamera, em 2003. Inscreveu-se num curso de um mês, em abril, mas acabou até novembro e regressou à Alemanha. Voltou todos os anos seguintes, até se fixar definitivamente na herdade. É a grande anfitriã, gere a receção.

Tem quatro filhos e cinco netos na Alemanha, família que visita e que a visitam. “Estão felizes enquanto a mãe estiver feliz e sou muito feliz. É um lugar onde podemos olhar para os diferentes aspetos da vida e onde há investigação sobre o desenvolvimento de uma cultura para a paz. Nem sempre é fácil, mas temos de encontrar soluções para reagirmos à violência. Mas, se tivermos uma reação violenta, também não nos devemos culpar. É algo que se treina e exige muito trabalho”, assegura Sabina.

Confessa que sempre foi muito difícil tirá-la do sério. Já não é essa a experiência de Isabel. “Era um pouco violenta, mas se queremos trabalhar para a paz, temos de perceber que isso começa por nós.”

A desconfiança com que eram olhados na localidade há 24 anos dissipou-se, ao ponto de se tornarem uma mais-valia, garante Daniel Balinhas, presidente da Junta de Freguesia de Relíquias, a que pertence Tamera. Tem 1120 residentes, sem contar com os habitantes de Tamera, onde os Censos não entraram em 2011. Um dos habitantes na comunidade é sócio do café e espaço cultural Onda no centro da freguesia. E, como demonstra o cartaz das Festas da Nossa Senhora de Relíquias, em agosto, participam nas festas da aldeia. Contribuíram para o programa com “O homem que cospe o fogo”, o colóquio “Alterações climáticas ou mudança de sistema” e, no encerramento, “Piza e dança”.

“Houve resistência da população de início, não estavam preparados. Eles instalaram-se, integraram-se na sociedade e trabalhamos em conjunto nas atividades e eventos, visitam os idosos, sabem como conquistar”, diz Daniel Balinhas.
Quanto ao aproveitamento da energia solar, ao banco de sementes, ao forno comunitário e ao cultivo da terra sem recurso a fertilizantes desenvolvidos em Tamera, é perentório: “Recuperam, o que existia antigamente. Não vieram ensinar mas recordar o que faziam os antigos”. Existem nas proximidades outras comunidades do género, duas delas dissidentes de Tamera, Cento e Oito e a Copa da Vida, além da de Mooji, um jamaicano de filosofia hindu.

As crianças estudam na maioria em casa (ensino individual e doméstico, portaria n.º 69/2019). Pertencem à Escola Básica Aviador Brito Paes, do 1.º ao 9.º ano, onde há 12 pedidos para aulas individuais em Tamera.

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