António Castanho (Técnico superior do MAI): A morte de um Polícia.

Sou Psicólogo Clínico e fui durante 18 anos elemento das Forças de Segurança e asseguro-vos que não existe acontecimento mais traumático para um profissional das Forças de Segurança que a morte de um camarada em serviço.

António Castanho

Técnico Superior da secretaria-geral do Ministério da Administração Interna

Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde

Felizmente nenhum colega com que trabalhei foi vítima de homicídio, mas foram muitos os agredidos, alvejados e ameaçados de morte e neste grupo estou presente. Alguns colegas com que trabalhei suicidaram-se e alguns morreram em acidentes de serviço.

Além da reação normal, associada ao sofrimento e à perda que sente com a morte de um parceiro, a morte de um colega reflete um fator de identificação poderoso: “Podia-me ter acontecido/ pode-me acontecer a mim amanhã”. Estas mortes são muito traumáticas para as famílias dos falecidos que de repente e de forma brutal foram privadas de um ente querido, geralmente no auge da sua vida.

Todos os anos, em Portugal, morrem no cumprimento do dever elementos da GNR, PSP e PJ e aqui pouco interessam a média anual ou as estatísticas oficiais. O que interessa na minha opinião é que cada vez que um polícia é agredido ou morto em serviço é um de nós que está em perigo, são as nossas mães, mulheres e filhos que estão mais expostos e menos seguros.
Muitos destes homens e mulheres são agredidos gravemente todos os anos, alguns escapam com a vida por milagre e não existe policia que não tenha sido ameaçado de morte mais que uma vez na sua vida profissional. Todos os anos alguns poem termo a sua vida. Estes homens e mulheres têm colegas, amigos, família … têm mulheres… têm filhos.

Com base na minha própria experiência clínica, enquanto psicólogo, experiência como ex-operacional da Polícia de Segurança Pública e com base na literatura listo algumas das reações comuns a tragédias desta natureza e deixo algumas recomendações com a intenção de serem de alguma utilidade aos profissionais das Forças de Segurança e ajudar na medida do possível a sua recuperação emocional e dos familiares das vítimas.

As reações dos colegas: respostas saudáveis e não saudáveis
O choque e descrença são muitas vezes as reações iniciais. Os colegas podem sentir-se entorpecidos e desorientados nos dias seguintes ao homicídio e gerirem em piloto automático as suas funções enquanto tentam enfrentar a atrocidade do que acabou de ocorrer. Muitos relatam que têm a sensação de ver o colega na camarata, no carro patrulha ou a entrar na Esquadra/Posto. Alguns podem ter inclusive quase-alucinações do colega morto, o que numa situação extrema como esta (e se for limitada no tempo) não é necessariamente uma reação patológica, mas sim uma forma sensório-perceptiva da realização do seu desejo, portanto uma situação/sintomatologia normal.

Contar histórias sobre o falecido – É uma forma de terapia narrativa auto-prescrita, em que os colegas partilham memórias e experiências que envolvem o seu colega falecido, muitas vezes utilizando um local onde se costumavam encontrar (usualmente um café). Isso não é necessariamente uma coisa má, desde que o álcool se usado moderadamente e construtivamente como facilitador de autoexpressão numa atmosfera de apoio, não de uma forma continua autodestrutiva para afogar sentimentos e ficar totalmente esmagado e / ou beber sozinho.

As cerimónias fúnebres

O funeral e o velório são locais onde os profissionais das Forças de Segurança se devem sentir livres para mostrar os seus sentimentos e emoções. É aqui também que os líderes devem demonstrar a sua consternação e apoio à família e aos sobreviventes. Este momento pode ter um efeito de cura poderoso.
Devem todos estar cientes de que expressões normais do luto não fazem da pessoa um fraco e que demonstrar os sentimentos de forma digna é realmente um sinal de respeito para com o falecido. É também normal e saudável que o choro surja de forma espontânea durante vários dias ou semanas seguintes à morte.

À medida que o tempo passa, muitos colegas continuam a experimentar um sentimento de profunda tristeza. Nestes casos poderá ser detetada uma grande sensação de fadiga, ausência de motivação e energia na maior parte dos turnos de serviço. O apetite e o sono podem ser afetados e podem ocorrer sonhos com o colega falecido. É provavelmente prematuro rotular esta fase como uma depressão, porque esta é geralmente também uma parte expectável do processo de luto; no entanto, algumas pessoas podem realmente ficar clinicamente deprimidos especialmente se tinham uma relação especial com o colega falecido ou se já tinham tido uma história clínica anterior ou outros problemas no passado. Se estiver a passar por isto ou se um colega estiver assim; procure ou incentive a procura de ajuda.

A tristeza associada à morte pode ser tingida com raiva e pode ser direcionada a vários alvos. A raiva contra o autor da morte do colega, especialmente se a homicídio ocorreu a sangue frio, é comum e muitas vezes alimentada pela forma como são percecionadas as insuficiências do sistema de justiça criminal em corrigir os crimes contra os profissionais das Forças de Segurança.
A raiva pode também ser dirigida contra todos os infratores à lei e isso pode levar por vezes a esforços de aplicação da lei com excesso de zelo, tornando-se também prejudicial para os próprios profissionais.

Alguma desta raiva pode ser alimentada pela culpa sentida nos sobreviventes (colegas de turno) e mais raramente, o sofrimento relativo à morte do camarada pode ser misturado sentimentos de raiva autodirigida, onde estes acreditam se de alguma forma tivessem feito diferente as coisas teriam tido outro desfecho.
Embora a maioria dos profissionais resolva a sua dor e siga em frente com a sua vida, alguns necessitarão de ajuda para lidar com o acontecimento, especialmente os mais próximos do agente falecido e os que ao lado dele viveram o acontecimento trágico. Estes podem experimentar uma visão do mundo permanentemente alterada no que diz respeito ao policiamento, à sociedade, ou à vida em geral.

Uma pequena percentagem pode inclusive ponderar deixar a profissão ou deixar a atividade operacional, contudo a maioria permanecerá nas suas atividades, embora com uma perspetiva diferente do seu trabalho e do seu papel na sociedade. Nas melhores situações, os sobreviventes continuam a fazer um bom trabalho como forma de homenagear o companheiro caído ao serviço da segurança pública.

A família

A morte prematura de um ente querido em qualquer circunstância é uma experiência extremamente dolorosa, contudo os familiares de um agente da autoridade morto em serviço são usualmente submetidos a novos traumas, decorrentes das investigações, processos judiciais e exposição mediática, durante as quais serão forçados a reviver a tragédia de novo. Para adicionar mais stress, nem todos os familiares de agentes mortos em serviço serão tratados com igualdade e os familiares de vítimas de homicídio podem recebem tratamento preferencial em relação aos mortos em acidentes ou suicídio.
Os familiares podem apresentar uma série de reações típicas à morte do seu ente querido. Geralmente demostram uma preocupação obsessiva com a natureza dos ferimentos sofridos, a brutalidade do homicídio, o tipo de armas usadas, e se terá sofrido no momento.

Ao contrário da morte acidental, o homicídio envolve um agressor humano, e quanto maior a intencionalidade percebida e sua malevolência, maior o sofrimento dos sobreviventes. A raiva profunda e justificável em direção ao homicida por vezes esmorece e noutras vezes reacende de acordo com os ritmos da investigação e do julgamento. Mesmo após a condenação do agressor, a raiva pode persistir por anos.

Uma estratégia de Coping comum consiste em ruminar fantasias de vingança.

Alguma desta raiva pode ser projetada sobre a própria instituição policial.
Mais comum que a raiva é a ansiedade flutuante e invasiva “medo de tudo” começa a pairar na consciência dos sobreviventes, começando na primeira notícia do assassinato e, por vezes persiste por vários anos ou mais. Os sobreviventes podem experimentar respostas psicofisiológicas de ativação a estímulos que usualmente não eram ameaçadores tais como notícias de crimes na televisão TV ou notícias de qualquer tragédia, incluindo acidentes de trânsito ou doenças fatais.

Os familiares podem ter sonhos perturbadores sobre a forma como morreu o seu ente querido ou sonhos realização de desejo de o proteger ou salvar. Isto pode ser agravado pela culpa irracional, no entanto ilogicamente, que deveriam ou poderiam ter feito mais alguma coisa, “Ele não era para ter ido trabalhar naquele dia… eu é que insisti”, “ele precisava do dinheiro do remunerado para o nosso projeto de vida”.

Estas alterações de vida minadas pela tragédia podem elevar o senso de sobrevivência e a noção da sua própria vulnerabilidade podendo conduzir à mudança das rotinas diárias, como por exemplo instalar alarmes recusar sair de casa depois de escurecer ou em visitar determinados locais e outras medidas de segurança até então não adotadas.

Pode existir evitação fóbica de situações que lembrem o trauma, incluindo pessoas, lugares, determinados alimentos, música e até mesmo abordagens bem-intencionadas por parte de colegas ou representantes institucionais.
Certos fatores agravam este stress tais como a bordagem dos média onde por vezes o nível de interesse lascivo da história aumenta acentuadamente. A visibilidade elevada e controlo destes casos faz com que os membros da família da vítima sejam alvo dos mais diversos avanços, usando todos os canais disponíveis – telefonemas, visitas domiciliares, e-mails, e assim por diante.

Paradoxalmente, algumas famílias podem sentir que sua situação está a ser totalmente ignorado: “Será que ninguém se importa o que aconteceu”
Muitas famílias fazem um esforço consciente para exercer autocontrole, mantendo seus sentimentos para si, especialmente na frente de estranhos. Paradoxalmente, isso pode causar a amigos bem-intencionados a exortá-los a não “segurar” as emoções quando o que a família realmente precisa agora é algum tempo para se reequilibrar de acordo com a sua própria dinâmica.

Muitas famílias procuram apoio e são capazes de aceitar a simpatia, compreensão e conselhos de amigos e outros familiares. Por outro lado, algumas podem retirar-se e isolar-se da vida social. Outros tornam-se irritados e mal-humorados, e podem assim, afastar potenciais fontes de apoio. Muitos ficarão tão devastados e com cicatrizes emocionais que temem que qualquer tipo de contato humano os possa levar a perder o pouco controle emocional que têm.

As crianças

As crianças desde muito cedo são confrontadas com a realidade existencial da fragilidade da vida e da impermanência e o fato de que coisas más podem acontecer a pessoas boas inesperadamente e a qualquer momento. Os filhos e filhas dos profissionais das Forças de segurança vivem isso de uma forma mais intensa, especialmente se têm conhecimento que um colega do pai foi morto em serviço.

A morte de um progenitor ou outro parente próximo, seja qual for a causa, tem um impacto especial sobre as crianças, e isso se aplicasse também aos filhos dos profissionais da Forças de segurança mortos no cumprimento do dever. Tal como acontece com todas as mortes prematuras, as crianças devem lidar com a perda do progenitor e com as perturbações nas rotinas da família, dos padrões de vida e na mudança dos papéis familiares que isso implica. A morte que é súbita e inesperada não permite despedidas ou terminar tarefas e projetos.

A morte que, adicionalmente, é violenta e traumática pode deixar as crianças enlutadas com uma mistura de sentimento de vergonha e horror.

Para terminar gostaria de relembrar que a vida ou a morte de um polícia atinge a comunidade, colegas e familiares e que quando um polícia morre em serviço ficamos todos de luto!

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